Teologia Relacional - O que é isso?

Teologia Relacional - O que é isso?

 

No dia 18 de dezembro de 2011, às 14h (horário de Brasília) debatemos sobre a polêmica questão da "Teologia Relacional" destacando as evidências desta doutrina, sua visão, aplicação e filosofias. Com 10 participantes ativos e outros simpatizantes levantamos várias posições a respeito da Teologia Liberal, do Teísmo Aberto, e da Adoção da Teologia Relacional por pastores renomados no meio evangélico, além da orientação bíblica quanto ao assunto.

 

O Teísmo Aberto, ou “Teologia Relacional”, como é conhecido no Brasil, foi motivo de acentuado debate à alguns anos, em virtude da aderência a esta corrente teológica por parte de alguns pastores que gozavam de relevante popularidade e influência.

 

A teologia relacional, como movimento, teve início em décadas recentes, embora seus conceitos sejam bem antigos. Ela ganhou popularidade através de escritores norte-americanos como Greg Boyd, John Sanders e Clark Pinnock. No Brasil, estas ideias têm sido assimiladas e difundidas às vezes de forma aberta e explicita por alguns líderes evangélicos, como o Pastor Presidente da Igreja Betesda, Ricardo Gondim.

 

A teologia relacional considera a concepção tradicional de Deus como inadequada, ultrapassada e insuficiente para explicar a realidade, e se apresenta como uma nova visão sobre Deus e sua maneira de se relacionar com a criação. Seus pontos principais podem ser resumidos desta forma:

 

1. O atributo mais importante de Deus é o amor. Todos os demais estão subordinados a este. Isto significa que Deus é sensível e se comove com os dramas de suas criaturas.

2. Deus não é soberano. Só pode haver real relacionamento entre Deus e suas criaturas se estas tiverem, de fato, capacidade e liberdade para cooperarem ou contrariarem os desígnios últimos de Deus. Deus abriu mão de sua soberania para que isto ocorresse. Neste sentido, ele é incapaz de realizar tudo o que deseja como impedir tragédias e erradicar o mal. Contudo, ele acaba se adequando às decisões humanas e ao final, vai obter seus objetivos eternos, pois redesenha a história de acordo com estas decisões.

3. Deus ignora o futuro, pois ele vive no tempo, e não fora dele. Ele aprende com o passar do tempo. O futuro é determinado pela combinação do que Deus e suas criaturas decidem fazer. Neste sentido, o futuro inexiste, pois os seres humanos são absolutamente livres para decidir o que quiserem e Deus não sabe antecipadamente que decisão uma determinada pessoa haverá de tomar num determinado momento.

4. Deus se arrisca. Ao criar seres racionais livres, Deus estava se arriscando, pois não sabia qual seria a decisão dos anjos e de Adão e Eva. E continua a se arriscar diariamente. Deus corre riscos porque ama suas criaturas, respeita a liberdade delas e deseja relacionar-se com elas de forma significativa.

5. Deus é vulnerável. Ele é passível de sofrimento e de erros em seus conselhos e orientações. Em seu relacionamento com o homem, seus planos podem ser frustrados. Ele se frustra e expressa esta frustração quando os seres humanos não fazem o que ele gostaria.

6. Deus muda. Ele é imutável apenas em sua essência, mas muda de planos e até mesmo se arrepende de decisões tomadas. Ele muda de acordo com as decisões de suas criaturas, ao reagir a elas. Os textos bíblicos que falam do arrependimento de Deus não devem ser interpretados de forma figurada. Eles expressam o que realmente acontece com Deus.

 

Ainda que o assunto exija mais atenção do que o espaço permitido neste espaço, algumas coisas precisam ser esclarecidas a este respeito. Para nós a soberania de Deus é indiscutível, mas para os adeptos desta Teologia é facilmente explicada de forma simplória e particularmente chula, mas que muitos tem se atraído por essa nova forma de pensar.

Ricardo Gondim insiste que a perspectiva bíblica sobre Deus não é a de um ser impassível, mas de um ser que expressa os seus sentimentos, ou seja, ele lamenta (Ez 6.9), ele se alegra (Sf 3.7), ele sente ciúmes (Sl 78.58) e ele tem prazer em mostrar o seu amor (Mq 7.18). Contudo, a explicação de Gondim para estas manifestações do sentimento divino é que ele preferiu limitar sua soberania e abrir mão de sua imutabilidade para relacionar-se com suas criaturas.

Segundo Gondim a soberania de Deus, conforme defendida por alguns cristãos, especialmente os calvinistas, anula a liberdade humana e impede o relacionamento do homem com Deus com base em seu amor. Assim ele sustenta: Numa espiritualidade relacional, tanto nós respondemos às iniciativas de Deus como Deus responde às nossas iniciativas. Numa teologia relacional, Deus corre risco nesse relacionamento com os seres humanos, embora seja infinitamente competente e sábio para alcançar seus objetivos eternos, redesenhando a história e ele mesmo se adequando às nossas decisões quando o frustramos.

Contudo, a teologia relacional não é novidade. Ela tem raízes em conceitos antigos de filósofos gregos, no socinianismo (que negava exatamente que Deus conhecia o futuro, pois atos livres não podem ser preditos) e especialmente em ideologias modernas, como a teologia do processo. O que ela tem de novo é que virou um movimento teológico composto de escritores e teólogos que se uniram em torno dos pontos comuns e estão dispostos a persuadir a Igreja Cristã a abandonar seu conceito tradicional de Deus e a convencê-la que esta “nova” visão de Deus é evangélica e bíblica.

Mesmo tendo surgido como uma reação a uma possível ênfase exagerada na impassividade e transcendência de Deus, a teologia relacional acaba sendo um problema para a igreja evangélica, especialmente em seu conceito sobre Deus. Muito embora os evangélicos tenham divergências profundas em algumas questões, reformados, arminianos, wesleyanos, pentecostais, tradicionais, neopentecostais e outros, todos concordam, no mínimo, que Deus conhece todas as coisas, que é onipotente e soberano. Entretanto, o Deus da teologia relacional é totalmente diferente daquele da teologia cristã. Não se pode afirmar que os aderentes da teologia relacional não são cristãos, mas sim que o conceito que eles têm de Deus é, no mínimo, estranho ao cristianismo histórico.

Ao declarar que o atributo mais importante de Deus é o amor, a teologia relacional perde o equilíbrio entre as qualidades de Deus apresentadas na Bíblia, dentre as quais o amor é apenas uma delas. Ao dizer que Deus ignora o futuro, é vulnerável e mutável, deixa sem explicação adequada dezenas de passagens bíblicas que falam da soberania, do senhorio, da onipotência e da onisciência de Deus (Is 46.10a; Jó 28; Jó 42.2; Sl 90; Sl 139; Rm 8.29; Ef 1; Tg 1.17; Ml 3.6; Gn 17.1; etc). Ao dizer que Deus não sabia qual a decisão de Adão e Eva no Éden, e que mesmo assim arriscou-se em criá-los com livre arbítrio, a teologia relacional o transforma num ser irresponsável. Ao falar do homem como co-construtor de Deus de um futuro que inexiste, a teologia relacional esquece tudo o que a Bíblia ensina sobre a Queda e a corrupção do homem. Ao fim, parece-nos que na tentativa extrema de resguardar a plena liberdade do arbítrio humano, a teologia relacional está disposta a sacrificar a divindade de Deus. Ao limitar sua soberania e seu pleno conhecimento, entroniza o homem livre, todo-poderoso, no trono do universo, e desta forma, deixa-nos o desespero como única alternativa diante das tragédias e catástrofes deste mundo e o ceticismo como única atitude diante da realidade do mal no universo, roubando-nos o final feliz prometido na Bíblia. Pois, afinal, poderá este Deus ignorante, fraco, mutável, vulnerável e limitado cumprir tudo o que prometeu?

 

Conclusão: Por mais que a teologia relacional traga um forte apelo a alguns evangélicos, pois diz que Deus está mais próximo de nós e se relaciona mais significativamente conosco do que tem sido apresentado pela teologia tradicional. Ela pretende apresentar um Deus mais humano, que constrói o futuro mediante relacionamento com suas criaturas. Os seres humanos são, dessa forma, co-participantes com Deus na construção do futuro, podendo, na verdade, determiná-lo por suas atitudes. Por sua vez, nós como cristãos bereianos identificamos isto como uma agrave a soberania de Deus. Não podemos adaptar as Escrituras ao nosso deleite para tirarmos proveitos particulares e individuais. Portanto que não sejamos levados pelas vãs filosofias deste mundo que tentam nos persuadir com a apresentação de um deus fraco, pobre, miserável, nu e desprovido de glória. O nosso Deus reina sobre tudo e tudo está sob o seu controle.